domingo, 13 de abril de 2008

O Milagre de São Leopoldo

2006, abril. 35 minutos do segundo tempo.
Decisão do campeonato do Vale do Rio dos Sinos.
Aimoré empatando com o Sapucaiense em 1 a 1. Os Estádio João Correa no Bairro Cristo Rei, abarrotado. 12 mil capilés incentivando a equipe, os surdos e demais tambores da FUBA (Força Unida do Barranco)não silenciavam um minuto. O juiz economizando nos cartões, o sol daquela tarde mantinha uma temperatura de 33º, com sensação de 38º.
Sufocante. A zaga do Sapucaiense resistindo bravamente com o resultado que lhe garantiria o título. A torcida em coro bradava incentivos ao Cacique da Taba. Eu como espectador privilegiado, acompanhava a partida com concentração, em pé com credencial de imprensa atrás da placa de patrocínio do Restaurante Caçarola, desbotada. Era vísivel o nervosismo dos dirigentes do Aimoré, era vísivel a fé que o treinador do sapucaiense depositava em seus jogadores. 40 minutos e o goleiro da Sapucaiense salva o time da cidade vizinha mais uma vez e sem a menor pressa caminhava vagarosamente para cobrar o tiro de meta. Nequinho, camiseta sete do Aimoré, levantava os braços pedindo mais barulho para a torcida leopoldense, o povo respondia gritando com toda a força, com o coração, AIMORÉ AIMORÉ!!!!
Cada grito parecia que dobrava a velocidade dos nossos atacantes, cada grito parecia ser capaz de romper qualquer esforço do Sapucaiense em se defender. A equipe vibrava junto e pressionava cada vez mais a equipe adversária, eram chutes de falta, bolas na área, tiros a queima-roupa, mas sempre aparecia uma canela, um carrinho, uma trave um goleiro para impedir a alegria da cidade de São Leopoldo. Eu via aquilo e não compreendia porque a bola não entrava, não entendia porque os deuses do futebol não brindavam aquela bravura toda, aquela mobilização da cidade em torno da sua equipe de futebol, justamente no jogo contra seu maior rival, justamente contra um time sem torcida, um time de empresários. 46 minutos. Ele mesmo, o capitão Nequinho assumiu a cobrança de escanteio. Havia 21 jogadores na área da Sapucaiense, pois até o goleiro do Aimoré subiu ao ataque na última tentativa de conquistar o título. Nequinho olhava para a bola no corner, e para a turba na área...naquele empurra empurra em que se decidiria o título. Eu, olhava para a torcida gritando, lutando e acreditando na última chance do jogo, seus olhos brilhavam, como os de Nequinho que olhou pra mim. Sim, pra mim. Eu que estava, quando dei por mim, saltando a placa de patrocínio, entrando na área, naquele único lugar em que um predestinado poderia estar, desloquei o corpo para a esquerda e saltei, ninguém entendeu nada, o tempo parou, acertei a cabeçada com a violência de quem não pensa, de quem age sobre alguma força sobrenatural. A bola estufou as redes. 12 mil torcedores trocaram o silêncio de um milésimo de segundo atrás por uma gritaria ensurdecedora de vitória. Os onze guerreiros da Sapucaiense calavam não acreditando no que acontecera, não havia mais fibra nem pra reclamar do árbitro, que validou o gol alegando não ter poder para ir contra o destino, para ir contra o impossível, o milagre do Cristo Rei que do alto da torre do mosteiro me acenava. Nequinho comemorava junto ao resto dos jogadores, a torcida invadiu o campo, e eu virei uma lenda.
Também depois disso decidi abandonar o jornalismo e abraçar a publicidade, eu não poderia assistir passivamente aquela partida e depois reportá-la imparcialmente, jamais. E vi também que o meu negócio era a publicidade, não é possível uma placa de publicidade exposta pra 12 mil pessoas ao vivo, mais para sei lá quantos espectadores pela Tv, estar desbotada.

Tudo mentira...mas imagina que massa...huahuahuahua